Na última sexta-feira (27), a Câmara Municipal promoveu uma audiência pública em alusão ao Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, por iniciativa da vereadora Luma Menezes. O encontro reuniu representantes de instituições públicas, educadores, estudantes, especialistas e parlamentares para discutir preservação ambiental, sustentabilidade, desigualdade socioambiental e os desafios relacionados ao acesso à água no município.
Na abertura, a vereadora Luma Menezes destacou o objetivo do evento, agradeceu a presença dos participantes e reforçou o caráter democrático da audiência pública, ressaltando que, além das contribuições da mesa, o espaço também seria aberto à população. “Isso significa que, além das intervenções dos participantes da mesa, o espaço será aberto à participação do público presente. Quem desejar se manifestar, apresentar alguma abordagem, esclarecer dúvidas ou fazer perguntas, terá esse momento organizado de forma participativa e representativa”, declarou.

Após a exibição de um vídeo com relatos sobre escassez hídrica, uso consciente da água e os impactos da crise ambiental na vida das pessoas, o debate avançou para uma análise mais técnica e territorial da questão hídrica no município. Nesse contexto, a coordenadora regional socioambiental da Empresa Baiana de Águas e Saneamento S.A (Embasa), Léa Gomes, destacou a urgência do tema, relacionando-o à preservação das nascentes e da mata ciliar diante das mudanças climáticas e do crescimento urbano. “Quando ocorre o desmatamento da vegetação ao redor dos rios para viabilizar construções e outras formas de desenvolvimento urbano, sem ações de preservação das nascentes, o cenário de escassez hídrica tende a se intensificar”, afirmou.

Em seguida, o gerente regional da Embasa, Júlio César Nunes, reforçou a importância da atuação institucional aliada à conscientização da população, destacando o papel da educação ambiental na ampliação do alcance das informações. “As pessoas presentes atuam como multiplicadoras. O que for aprendido aqui, especialmente sobre economia de água e conscientização, poderá ser compartilhado com familiares, vizinhos e amigos, ampliando o alcance das informações”, disse.

Sob a perspectiva educacional e comunitária, a professora Hemilly Souza, do Colégio Municipal Jairo Azi, trouxe a realidade do distrito de Riacho da Guia, evidenciando os impactos diretos da degradação ambiental na vida da população local. “Observamos diversos problemas na comunidade decorrentes da perda e da degradação desses rios, o que compromete não apenas o meio ambiente, mas também o sustento e a identidade das comunidades”, afirmou.

A discussão também incorporou o jurídico e social, com a participação da coordenadora da 13ª Defensoria Pública de Alagoinhas, Daniele Melo Oliveira, que destacou a relação entre acesso à água e desigualdade. “Quando tratamos de racismo ambiental, nos referimos ao fato de que os impactos ambientais atingem de forma mais intensa as periferias, áreas sem saneamento básico e sem estrutura adequada, afetando principalmente aqueles que já enfrentam maiores dificuldades de acesso a direitos”, declarou.

Ampliando o debate para a infraestrutura urbana, Renato Mascarenhas, representando Cláudio Espinheira, secretário municipal de Manutenção, abordou a questão da drenagem e seus desafios estruturais no município. “A drenagem não é um problema simples, tampouco se resolve de forma imediata. A estrutura de Alagoinhas é antiga, e o descarte irregular de resíduos continua sendo um dos principais fatores de entupimento das galerias”, afirmou.

Na mesma linha, o professor Igor Ferreira, do Colégio Santo Graal, contextualizou a discussão a partir de marcos históricos da agenda ambiental e destacou a necessidade de enfrentamento das desigualdades socioambientais. “É fundamental combater o racismo ambiental, especialmente pela defesa dos direitos humanos e pela promoção da justiça para aqueles mais atingidos, seja por desastres naturais ou por falhas na gestão e implementação de políticas públicas”, pontuou.

Já no campo técnico-científico, o professor Henrique Sereno, do IF Baiano, ressaltou a importância da água na cadeia produtiva de alimentos e alertou para a necessidade de fiscalização ambiental mais rigorosa. “Cada indústria deve possuir sistema de tratamento adequado, garantindo que a água seja tratada antes do descarte, evitando a contaminação dos rios e dos lençóis freáticos”, disse.

A bióloga Giovana Oliveira reforçou que o debate precisa avançar para além das datas comemorativas, incorporando também a responsabilização de grandes consumidores. “O maior consumo de água não está na população em geral, mas no agronegócio e na indústria. Portanto, além de incentivar a economia nas ações cotidianas, é necessário cobrar dessas estruturas o cumprimento de suas responsabilidades”, afirmou.

Na sequência, a professora Daniela Moitinho, do Colégio Municipal de Alagoinhas, propôs uma reflexão a partir do vídeo exibido, destacando a necessidade de ação coletiva. “Se não assumirmos a responsabilidade individual e coletiva, a água poderá faltar para todos. Esse cenário já se manifesta, não apenas na zona rural, mas também em áreas centrais da cidade”, alertou.

A engenheira ambiental da Secretaria de Desenvolvimento Rural e Meio Ambiente Rosiane Cruz, idealizadora do programa Lago Inês Mais Verde, reforçou a importância das ações individuais articuladas com a coletividade. “A adoção de pequenas ações voltadas à sustentabilidade, quando realizadas de forma coletiva, pode gerar resultados significativos. É fundamental fortalecer essa união enquanto sociedade”, afirmou.

Desigualdade
Dando continuidade ao debate, a vereadora Luma Menezes relacionou a pauta ambiental às desigualdades estruturais do município e apresentou dados sobre o cenário socioeconômico de Alagoinhas, defendendo a formulação de políticas públicas baseadas em evidências. “A desigualdade em Alagoinhas não é aleatória. Ela possui localização definida, recorte racial e impacto ambiental, e precisa ser enfrentada com base em dados”, declarou.
Ainda nesse contexto, a parlamentar também criticou a ausência de representantes do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), apesar de a autarquia ter sido convidada para participar da audiência. “Contamos com a presença da Embasa, mas não há representação do SAAE para tratar do abastecimento de água e prestar os devidos esclarecimentos à população”, afirmou.
Na sequência, a Embasa apresentou suas ações institucionais e socioambientais. Retomando o diálogo com os estudantes, Léa Gomes reforçou a necessidade de compreender a água como um recurso vital e finito. “A água é essencial à vida, mas é um recurso limitado. Há comunidades sem acesso à água tratada, além de rios e nascentes comprometidos pelo desmatamento. Trata-se de um sistema interligado”, destacou.
Complementando, Júlio César Nunes apresentou dados sobre a atuação da empresa no estado, abordando cobertura de abastecimento, esgotamento sanitário e políticas como a tarifa social. “A Embasa não tem finalidade lucrativa. Os recursos arrecadados são reinvestidos em saneamento, e as escolas interessadas podem formalizar solicitações para visitas técnicas às unidades”, explicou.
Por fim, Léa Gomes detalhou projetos de sustentabilidade, como o viveiro-educador e ações de recuperação ambiental, reforçando a possibilidade de regeneração dos ecossistemas. “Há possibilidade de recuperação ambiental. A natureza possui capacidade de regeneração, desde que haja continuidade, planejamento e atuação conjunta”, afirmou.
Participação
Na oportunidade, o vereador Luciano Almeida parabenizou a iniciativa, mas apontou a ausência histórica de políticas estruturantes no município. “Alagoinhas tem origem nas lagoas, mas hoje muitas nascentes estão poluídas. Persistem problemas como abastecimento por carro-pipa e ausência de investimentos estruturais na rede e na preservação dos mananciais”, afirmou.

Na mesma linha, o vereador Cláudio Abiude destacou a importância de envolver a juventude no debate e lamentou a perda de espaços naturais ao longo do tempo. “As novas gerações foram privadas de experiências que antes eram comuns, como o acesso a rios e fontes, em razão da degradação ambiental”, declarou.

Já o vereador Gleyser Soares defendeu a integração entre políticas ambientais e educação, ressaltando a necessidade de avanço nas ações municipais. “As ações ambientais precisam estar articuladas com a educação, pois é por meio dela que se constrói uma transformação efetiva na sociedade”, afirmou.

Por sua vez, o vereador Thor de Ninha reforçou a importância da água como um recurso estratégico e defendeu o compromisso coletivo com sua preservação. “A discussão sobre a água não deve ser tratada sob viés partidário ou ideológico, mas como uma pauta de Estado e de humanidade, que exige compromisso coletivo com sua preservação”, disse.

No encerramento, a vereadora Luma Menezes agradeceu a participação das instituições de ensino, destacou o envolvimento dos estudantes e reforçou a necessidade de continuidade do debate ambiental no município. “Quando deixamos de cuidar da água e do meio ambiente, colocamos em risco a nossa própria existência. Esse não é um debate pontual, mas uma responsabilidade permanente de todos nós, do poder público e da sociedade”, concluiu.
Para assistir a sessão na íntegra, clique abaixo:
Ascom – Câmara Municipal de Alagoinhas
Fotos – Jhô Paz