A Câmara Municipal realizou, na noite de ontem (26), audiência pública proposta pela vereadora Luma Menezes para discutir o incentivo ao aleitamento materno e a implantação de um Banco de Leite Humano no município. A atividade reuniu profissionais da saúde, representantes de conselhos e instituições, estudantes e integrantes da comunidade, com debates sobre assistência materno-infantil, apoio às pessoas que amamentam e estruturação do serviço em Alagoinhas.
Na abertura, a vereadora explicou que, em 2026, havia destinado parte de uma emenda parlamentar para a implantação de um posto de coleta, mas a mudança de perspectiva da Secretaria Municipal de Saúde levou à construção de uma proposta mais ampla, voltada à criação de um Banco de Leite Humano.
“Os planos acabaram mudando para que a gente consiga avançar para um Banco de Leite, e não apenas um ponto de coleta. Para o futuro, esperamos conseguir, além da nossa emenda, outros recursos para avançar nesse projeto”, explicou.

Representando a OAB Mulher Alagoinhas, a advogada Ana Cristina de Jesus ressaltou os benefícios do aleitamento para a saúde da criança e da mãe e compartilhou sua experiência pessoal com a amamentação de um filho prematuro.
“Nos primeiros seis meses de vida, a amamentação é vida. O aleitamento materno é essencial para que a criança se desenvolva com saúde e tenha maior proteção”, afirmou.

Representando o secretário municipal de Saúde, Luciano Sérgio, a enfermeira obstetra Patrícia Barros informou que o município trabalha para incluir o Banco de Leite no projeto de reforma e ampliação do Hospital Materno e Infantil de Alagoinhas (HMIA), em articulação com o Governo do Estado.
“Já tivemos o pleito favorável, o primeiro passo foi dado e estamos no ajuste do projeto. Já fizemos visita técnica ao Hospital Materno e Infantil, e o processo está em andamento para que possamos finalmente conseguir nosso Banco de Leite”, declarou.

A enfermeira e presidente do Conselho Municipal de Saúde, Daniela Barbosa da Rocha, chamou atenção para os direitos das trabalhadoras que amamentam e para a necessidade de garantir continuidade ao aleitamento mesmo após o retorno às atividades profissionais.
“A trabalhadora precisa ter o seu direito reservado e garantido de amamentar durante o dia. O vínculo não pode ser interrompido quando ela retorna ao trabalho, e a amamentação também não deve ser interrompida”, destacou.

Especialista em Neonatologia e Pediatria, Daniele Santos Jesus ressaltou que o Banco de Leite Humano desempenha funções que vão além da coleta e distribuição, oferecendo orientação e apoio especializado às famílias.
“O Banco de Leite é muito mais do que uma unidade aonde o leite chega e sai. É uma oportunidade de oferecer apoio, orientação, proteção e incentivo ao processo de aleitamento materno”, afirmou.

Representando o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos das Mulheres, Renata Fortaleza destacou a relevância da presença feminina nos espaços de decisão e na formulação de políticas públicas relacionadas às necessidades das mulheres.
“É fundamental termos mulheres nesses lugares de poder, porque precisamos de representatividade para discutir temas que falam diretamente sobre nós, sobre nossas necessidades e nossas experiências”, declarou.

A enfermeira e docente da FATEC Maria das Graças Santos Oliveira lembrou que a implantação de um Banco de Leite em Alagoinhas é uma reivindicação antiga e defendeu o fortalecimento das orientações sobre amamentação desde o pré-natal.
“Há 30 anos estive nesta Casa pedindo exatamente isso: que Alagoinhas tivesse um Banco de Leite Humano. Precisamos começar o incentivo ainda no pré-natal e mostrar à mulher que ela pode, é capaz e tem potencial para amamentar”, afirmou.

Representando o Hospital Materno e Infantil de Alagoinhas, a enfermeira obstetra Lizandra Aquino destacou que a unidade atende pacientes de 34 municípios e apresentou dados que evidenciam a importância da estrutura para o atendimento neonatal.
“Dentro de um ano, tivemos 129 admissões na UTI neonatal e, dessas, 56 foram de prematuros, o equivalente a 43%. Por isso, é de extrema importância que o Banco de Leite seja implantado na nossa unidade”, explicou.

O psicólogo Moacir Lira, coordenador do CAPS III e do curso de Psicologia da Faculdade Santíssimo Sacramento, abordou os aspectos emocionais envolvidos na amamentação e defendeu o fortalecimento da assistência psicológica no período gestacional e pós-parto.
“O estado emocional da mãe pode interferir na produção do leite. Ansiedade, medo e esgotamento podem dificultar esse processo, e o suporte psicológico e emocional à puérpera ajuda a reduzir a insegurança e superar dificuldades na amamentação”, afirmou.

A educadora perinatal, doula e enfermeira Eduarda Bonfim apresentou aspectos científicos, sociais e econômicos relacionados ao aleitamento e destacou o Banco de Leite como estratégia de saúde pública.
“O Banco de Leite Humano não é apenas uma estrutura física ou uma pauta técnica. É uma estratégia de saúde pública voltada à proteção neonatal, ao apoio às puérperas, à promoção do aleitamento materno e ao fortalecimento da nossa rede de atenção”, ressaltou.

Representando a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, Cleidiane Rocha chamou atenção para os diferentes contextos enfrentados pelas mulheres durante a amamentação, especialmente aquelas que precisam retornar ao trabalho ou não contam com uma rede de apoio.
“São muitas questões sociais envolvidas nesse processo. Precisamos refletir sobre quem é essa mulher que está amamentando, onde ela está inserida, se trabalha, se tem apoio e quais condições possui para manter o aleitamento”, pontuou.

A enfermeira Rafaela Barreto defendeu a ampliação do debate sobre amamentação para diferentes grupos sociais e ressaltou que a pauta precisa continuar sendo trabalhada também fora da audiência.
“Não deixem essa discussão acabar aqui. Precisamos levar essas informações adiante e fortalecer, nos territórios, a promoção, a proteção e o incentivo ao aleitamento humano”, afirmou.

Por fim, a neonatologista Luciana Liro destacou a necessidade do Banco de Leite diante do aumento da capacidade de atendimento neonatal do Hospital Materno e Infantil e relatou experiências profissionais e pessoais relacionadas à amamentação.
“O perfil da maternidade mudou. Hoje temos mais recursos e profissionais preparados para atender prematuros e bebês graves, e o Banco de Leite vem justamente agregar a esse cuidado”, declarou.

Participação
Durante a participação do público, a estudante de Enfermagem Nathiele de Jesus questionou como garantir orientação sobre aleitamento às mães em situação de vulnerabilidade que chegam à maternidade sem terem realizado acompanhamento pré-natal.
“Como podemos garantir educação em saúde sobre amamentação para mães que, por vulnerabilidade social, não conseguiram realizar o pré-natal e têm a maternidade como primeira porta de entrada?”, perguntou.

Em resposta, Lizandra Aquino destacou que, mesmo com o curto período de permanência na maternidade, a equipe multiprofissional deve aproveitar esse momento para acolher, orientar e sensibilizar as mães sobre a importância da amamentação.
“Mesmo com pouco tempo, precisamos acolher, orientar e envolver toda a equipe. Quando falamos de amamentação, todos dentro da maternidade precisam falar a mesma linguagem e trabalhar na mesma direção”, respondeu.
Ao encerrar a audiência, Luma Menezes agradeceu a participação das instituições, profissionais, estudantes e integrantes da comunidade e ressaltou a expectativa de que a discussão contribua para transformar em realidade a implantação do Banco de Leite Humano em Alagoinhas.
“Trinta anos depois, estamos discutindo sobre isso aqui. Que não precisemos esperar mais tanto tempo para que esse sonho antigo se torne realidade. Uma iniciativa como essa não vai atender apenas Alagoinhas, mas toda uma região”, concluiu.
Para assistir a sessão na íntegra, clique abaixo:
Ascom – Câmara Municipal de Alagoinhas
Fotos – Jhô Paz