Primeira vereadora era eleita há 90 anos em Alagoinhas

Há 90 anos a cidade de Alagoinhas escrevia uma nova página na sua história política ao eleger Áurea Ribeiro Cravo, 59 anos, como a primeira mulher ao parlamento municipal. A ata de posse onde está registrada a assinatura de posse de Áurea Cravo está sob a responsabilidade do Memorial do Legislativo, digitalizada e disponibilizada para pesquisa através do site da UNEB, responsável, através do pós-crítica, pela recuperação das atas e documentos históricos após a implantação do Memorial.

A ata, datada de 13 de abril de 1936, traz também a posse de seu filho, Mário da Silva Cravo, no cargo de prefeito, bem como dos demais vereadores, 11, no total, a saber, Alcindo de Camargo, Miguel Olímpio de Azevedo, Álvaro Ernesto de Figueredo, Francisco da Costa Baptista, Severiano de Souza Caldeira, Saturnino da Silva Ribeiro, Manoel Campos Martins Junior, Miguel Olímpio Pinto de Azevedo e Álvaro Dantas.

Esses vereadores foram eleitos em janeiro de 1936 após turbulências políticas no início da década. Áurea Cravo é um sinônimo de representatividade feminina na Câmara, dando um passo importante para a representatividade da mulher no espaço político, na época dominado pelos homens.
A sessão solene aconteceu no salão nobre do antigo Paço Municipal, presidida pelo juiz da Comarca Edgard Joaquim de Souza Carneiro, juiz de direito da zona eleitoral da cidade, designado pelo presidente do Tribunal Regional da Justiça Eleitoral do Estado.

Após juramento e posse, cujo mandato se estenderia até 1940, foi aberta a inscrição das chapas concorrentes à presidência, secretários e vice-presidente. A chapa vencedora teve o vereador Saturnino Ribeiro, presidente, Áurea Cravo, vice-presidente, Álvaro Ernesto de Figueredo, 1º secretário, e Alcindo de Camargo, 2º secretário.

O período legislativo de 1936 a 1940 foi marcado por uma série de acontecimentos políticos e extra Câmara, que mudaram o rumo dos trabalhos na Casa. Alcindo de Camargo, em 25 de setembro de 1936, bastante reconhecido pelo seu trabalho na educação, chegou a pedi a renúncia de seu cargo na Mesa Diretora, alegando falta de tempo, pois, além da Câmara, tinha ocupação no Serviço de Telégrafos e no Colégio Municipal. Isso aconteceu no dia 5 de outubro de 1936, sob a alegação de incompatibilidade com seu trabalho.

Embora a história conte que Áurea Cravo tenha sido uma liderança nata, sofreu a influência do marido, Joaquim da Silva Cravo, intendente do município entre os anos de 1921 e 1923, e do seu filho, Mário Cravo. Seu trabalho social à conduziu ao Legislativo, mas a ata das primeiras sessões não registra fortes influências em plenário.

Na mesma ata de 1936 está registrado pronunciamento do vereador Álvaro Figueredo, comunicando que naquele dia, 14 de Outubro, o falecimento do médico e ex-intendente do município, Joaquim Climério Dantas Bião, na sede da República, cidade do Rio de Janeiro. Dantas Bião, como ficou conhecido, teve seu corpo trasladado para Alagoinhas, onde foi sepultado.

Nas atas seguintes, a presença de Áurea Cravo é sempre registrada como ausente. Apesar de liderança comunitária forte, sua saúde era frágil e sua ausência era constante.

Na sessão ordinária seguinte, o vereador Saturnino Ribeiro solicitou ao colega Francisco Baptista a leitura da Ordem do dia. Num deles constava uma carta de Renúncia da vereadora Áurea Ribeiro Cravo. O próprio Francisco Baptista disse que votaria favorável à carta de renúncia da vereadora por conhecer os motivos que a levaram a tal ato. Os demais vereadores presentes à sessão do dia 15 de Outubro de 1936 também votaram favoráveis à renúncia, mesmo constrangidos com o fato.

Quem foi Áurea Ribeiro Cravo

Áurea Ribeiro nasceu na cidade de Pedrão, à época distrito da cidade de Irará, em 28 de abril de 1877. Ainda jovem casou-se com o comerciante e político também de Irará, mas já radicado em Alagoinhas, local onde prosperou, entrou para a política e exerceu vários cargos, entre eles o de Conselheiro Municipal em Alagoinhas, chegando a Intendente entre os anos de 1885 a 1889, e no século XX, novamente intendente municipal entre os anos de 1921 a 1923.

Após casar-se com Joaquim Cravo, Áurea passou a usar o sobrenome do marido, passando a ser conhecida como Áurea Cravo. Em Alagoinhas tornou-se uma liderança feminina atuante, tendo desenvolvido várias atividades comunitárias. O seu filho, Mário Cravo, nasceu em Pedrão, em 1896, mas foi morar com a família ainda criança. Na fase juvenil, assumiu postos importantes na holding do pai, onde foi diretor presidente da Tabacarela do Brasil S/A, Cravo Motor S/A, Mário Cravo S/A Industrial e Agrícola, Automóveis da Bahia S/A – AUTOBASA, Industrial Pastoril Palestina S/A, Cravo & Filho Ltda. Mário Cravo entrou cedo para a política, sendo nomeado prefeito (intendente), de Alagoinhas entre os anos de 1930 a 1937.

Durante o seu mandato, abriu mão integralmente dos rendimentos a que tinha direito enquanto prefeito. Voltou a exercer um mandato, ao eleger-se deputado estadual pela União Democrática Nacional – UDN para o período de 1951/1955. Nessa oportunidade, aproveitando uma seqüência de emancipações de municípios promovidas pela Assembleia Legislativa, apresenta o projeto de criação do município de Cravolândia, que deveria surgir da emancipação do distrito de Iguatiguira, então vinculado à cidade de Santa Inês. E que se localizava dentro dos limites das terras da fazenda Palestina. Na Assembléia Legislativa integrou a comissão de Indústria e Comércio. Criado o município, foi Mário da Silva Cravo o seu primeiro prefeito.

Áurea Cravo morreu em 21 de junho de 1961, aos 84 anos. Em Alagoinhas ela é homenageada com o nome de rua no bairro Pirinel, mas já teve um colégio no mesmo bairro com seu nome, hoje rebatizado pela Secretaria Estadual de Educação de Colégio dos Rodoviários. Sua história também é lembrada no Memorial da Câmara Municipal, que guarda a ata de sua posse e seu mandato. Na última sessão plenária, a vereadora Juci Cardoso exibiu a ata de posse de Áurea Cravo e lembrou a importância simbólica do mandato da primeira mulher a chegar ao parlamento municipal.

Ascom – Câmara Municipal de Alagoinhas

Autor – Vanderley Soares

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