Antes de se consolidar como um polo industrial e de serviços, Alagoinhas mudou de lugar. O primeiro núcleo urbano do município surgiu ao redor da antiga Igreja de Santo Antônio, na atual Alagoinhas Velha. Mas foi a chegada da estrada de ferro, na segunda metade do século XIX, que transformou definitivamente o rumo da cidade, atraindo moradores, comércio e novas oportunidades para as proximidades da estação ferroviária. A cidade cresceu ao redor dos trilhos e construiu uma relação que permanece viva na memória de seus habitantes. Como parte das comemorações pelos 173 anos de emancipação política de Alagoinhas, a Câmara Municipal apresenta a história e a atuação da VLI, empresa que mantém viva uma importante parte desse legado ferroviário.
Na unidade de Alagoinhas, Bráulio Meyers, analista de Relações Institucionais e Governamentais da VLI, apresentou a história da empresa e explicou como a antiga Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), privatizada em 1996, deu origem à atual VLI, hoje administrada por um grupo de acionistas e responsável por uma das principais malhas ferroviárias do país.

Em Alagoinhas, a empresa concentra a manutenção de locomotivas e vagões do corredor Minas-Bahia, que se estende de Curvelo (MG) até Simões Filho (BA). A oficina atende equipamentos que circulam por toda essa extensão da malha, além de operar o transporte de cargas estratégicas para o estado, como o cromo destinado à Ferbasa. Atualmente, a unidade conta com mais de 100 colaboradores e movimenta cerca de 50 trens por mês, transportando aproximadamente 400 mil toneladas de cargas por ano.
Ao apresentar a operação, Bráulio destacou que a ferrovia continua exercendo um papel importante na logística nacional, especialmente pelo transporte de grandes volumes de carga com menor impacto ambiental.
“O trem continua sendo um dos meios de transporte mais sustentáveis que existem. Cada vagão transporta o equivalente a cerca de duas carretas e meia, reduzindo o fluxo nas rodovias e emitindo menos poluentes. Além disso, nossa malha conecta aproximadamente 250 cidades em sete estados brasileiros, contribuindo diretamente para a movimentação das riquezas do país”, afirmou.

Logo na entrada da unidade, uma locomotiva a vapor fabricada em 1933 recepciona quem chega ao complexo ferroviário. Restaurada e preservada pela empresa, ela simboliza o início de uma trajetória que ajudou a transformar Alagoinhas em um dos mais importantes entroncamentos ferroviários da Bahia e permanece como um marco da história ferroviária do município.
Bráulio também apresentou a estrutura operacional da unidade e explicou que a VLI atua exclusivamente no transporte de cargas. Em Alagoinhas, a empresa desempenha um papel estratégico na manutenção de locomotivas e vagões que circulam por toda a malha do corredor Minas-Bahia. Oficinas especializadas realizam inspeções, soldagens, substituição de componentes e recuperação dos equipamentos antes de seu retorno à operação.
Durante a conversa, o analista comentou sobre a renovação da concessão ferroviária e destacou que a continuidade das atividades permite novos investimentos e amplia as possibilidades de crescimento da operação.
“Estamos sempre olhando para novas oportunidades de mercado. Nosso grande desafio é ampliar clientes, fortalecer a operação na Bahia e continuar contribuindo para o desenvolvimento do estado”, destacou.

Outro aspecto apresentado foi a formação de novos profissionais. Segundo Clauber Rodrigues Nascimento, supervisor de Operação da VLI, funções como operador de manobra e maquinista exigem um longo período de capacitação interna, já que ainda não existe na região um curso técnico específico voltado ao setor ferroviário.
A VLI mantém parceria com o Senai por meio do programa Jovem Aprendiz, formando estudantes em cursos como eletromecânica e, mais recentemente, auxiliar administrativo. Parte desses jovens acaba sendo absorvida pela empresa, mas a preparação para as funções operacionais continua sendo realizada internamente.
“Já sugerimos ao Senai a criação de um curso voltado para o contexto ferroviário. Se o profissional chegasse aqui com noções básicas sobre ferrovia, reduziríamos bastante o tempo de formação. Hoje levamos cerca de um ano para preparar um maquinista, e esse é um conhecimento muito específico”, ressaltou.

Ao falar sobre Alagoinhas, Bráulio deixou a análise técnica para compartilhar uma percepção construída desde que chegou ao município.
“Quando cheguei aqui procurei conhecer a história da cidade. Como bom forasteiro, precisava entender onde estava. E percebi que a história de Alagoinhas está profundamente entrelaçada à história da ferrovia. A cidade e a ferrovia cresceram juntas e uma sempre fez parte da trajetória da outra”, observou.
Na área de manutenção, Clauber apresentou a rotina das oficinas e explicou que locomotivas e vagões passam diariamente por inspeções preventivas e corretivas antes de retornarem à operação, garantindo segurança, confiabilidade e eficiência ao transporte ferroviário de cargas.
Ao comentar a relação entre a ferrovia e a cidade, o supervisor destacou que esse vínculo permanece vivo principalmente por meio das famílias que construíram suas histórias nos trilhos.
“A ferrovia faz parte da cultura de Alagoinhas. Temos muitos filhos e netos de ferroviários trabalhando conosco. Essa paixão passa de geração em geração. Há crianças que sonham em ser maquinistas porque cresceram vendo seus pais e avós dedicarem a vida aos trilhos. É uma história que faz parte da cidade”, declarou.
Segundo Clauber, esse sentimento ultrapassa os limites da empresa e continua presente na memória coletiva dos alagoinhenses.
“A ferrovia faz parte do contexto da cidade. Ela ajudou a construir a história de Alagoinhas e continua sendo motivo de orgulho para muitas famílias”, acrescentou.

Esse patrimônio histórico também é preservado na Estação de Memórias, instalada na Fundação Iraci Gama (FIGAM). Fruto de uma parceria entre a VLI, a Agência de Iniciativas Cidadãs (AIC), a FIGAM e a Prefeitura de Alagoinhas, o espaço reúne fotografias, documentos, objetos históricos e depoimentos que ajudam a compreender como a chegada da estrada de ferro alterou o eixo urbano do município e marcou a trajetória de gerações de alagoinhenses.
Conhecer essa história é compreender uma das transformações mais importantes vividas por Alagoinhas. Mais do que representar um período marcante do passado, a ferrovia permanece como um patrimônio histórico, cultural e logístico, preservando a memória de uma cidade cuja trajetória foi profundamente influenciada pela chegada dos trilhos.
Ascom – Câmara Municipal de Alagoinhas
Fotos – Jhô Paz