Uma epidemia silenciosa que desafia gestores do sistema público de saúde, médicos e famílias. Foi sob essa perspectiva que a Câmara Municipal realizou ontem (17), Dia Mundial do Diabetes, audiência pública proposta pelo vereador Thor de Ninha.
O evento não serviu apenas para celebrar a data, mas transformou-se em um painel técnico e humano sobre os avanços e gargalos da saúde municipal, expondo publicamente um dado esclarecedor: a redução de 40% no número de amputações de membros inferiores na cidade no primeiro ano de atuação do Programa de Feridas Complexas.
O encontro reuniu representantes da Secretaria de Saúde, especialistas em endocrinologia, oftalmologia, estomaterapia, psicologia, além de lideranças da sociedade civil e da cultura, estabelecendo um diálogo franco e produtivo sobre prevenção, tratamento e direitos.
Na abertura dos trabalhos, o vereador Thor de Ninha definiu o tom da discussão, fugindo do protocolo político para tocar na ferida social da doença.
“O diabetes é uma doença autoimune, silenciosa, mas que dá indícios. O cuidado não pode ser apenas do poder público, tem que ser de toda a sociedade. Esta é uma doença que transforma uma pessoa comum em uma pessoa com deficiência de um dia para a noite, trazendo cegueira e mutilação”, alertou.
O parlamentar compartilhou relatos impactantes, incluindo o caso de uma jovem de 13 anos, diagnosticada aos 11, que hoje depende de cinco aplicações diárias de insulina, ilustrando que a doença não escolhe idade. Thor reforçou o papel de seu mandato em fiscalizar, mas também em reconhecer e impulsionar políticas que funcionam, como a regularização salarial dos atendentes e o fardamento dos agentes comunitários.

Um dos momentos marcantes da audiência foi a explanação da enfermeira e estomaterapeuta Édila Gouveia, responsável pelo Programa de Feridas Complexas da Policlínica Municipal. Com dois anos de existência, o serviço tornou-se referência regional.
Édila explicou a fisiopatologia do “pé diabético” e a gravidade da falta de equipamentos de alta complexidade na região, como a arteriografia e angioplastia. Sem esses exames, muitos cirurgiões vasculares optam pela amputação baseados apenas na palpação. É aí que entra o diferencial da enfermagem especializada na atenção média.
“No primeiro ano do programa, reduzimos em 40% as amputações na cidade. Apenas em 2024, já realizamos 1.077 atendimentos e tivemos 213 altas com lesões completamente fechadas”, revelou.
A enfermeira destacou ainda a eficiência econômica e clínica do uso da “Bota de Unna” e terapias multicamadas, que custam ao município cerca de R$ 50,00, enquanto na rede privada o tratamento similar ultrapassa R$ 240,00. “Estamos salvando membros e devolvendo dignidade com um custo acessível, graças ao SUS”, completou, sendo aplaudida por agentes de saúde e pacientes recuperados presentes na plateia.

Agente Comunitária de Saúde, Arleide de Carvalho Lima fez um relato emocionado sobre o impacto do Programa de Feridas Complexas na qualidade de vida de portadores de diabetes. “Já encaminhei vários pacientes com feridas de anos que não tinham avanço nenhum e receberam alta. Hoje existe esse programa e a comunidade só tem a ganhar”, afirmou a profissional.

Representando a Diretoria de Atenção Especializada e o Planejamento da Secretaria de Saúde, Gesley Casaes apresentou uma abordagem científica atualizada. Ele citou dados do recente congresso da Associação Brasileira de Diabetes, introduzindo conceitos novos como o “Diabetes Tipo 5”, relacionado à desnutrição desde a fase gestacional, e o “Diabetes Burnout” – o esgotamento mental do paciente que, mesmo seguindo regras, não atinge as metas glicêmicas.
O profissional enfatizou que o tratamento não pode ser “glicocêntrico” (focado apenas no açúcar), mas deve olhar o indivíduo integralmente.
“Não adianta focar apenas na glicemia. Precisamos falar sobre saúde mental, disfunção erétil e outras comorbidades. O paciente não é só diabetes, ele é um complexo. Por isso transformamos o antigo centro em programa, facilitando o acesso a urologistas e cardiologistas”, explicou.

A gerente do Programa de Atenção Integral de Diabetes e Hipertensão (CAIDH), Rita de Cássia, detalhou a estrutura oferecida na Policlínica, que funciona como unidade de estabilização com equipe multidisciplinar.
A dinâmica de atendimento gerou debate. A paciente Magnólia de Lima Araújo questionou sobre a necessidade de retornar ao Posto de Saúde após o tratamento no centro especializado. Em resposta, Gesley esclareceu a lógica da rede.
“Temos mais de 14 mil diabéticos no município. Se todos ficarem permanentemente no CAIDH, fechamos a porta para quem está agravando agora. O objetivo é estabilizar o paciente, ensiná-lo a se cuidar e devolvê-lo à Atenção Básica fortalecido”, detalhou Gesley, reforçando a importância da rotatividade para garantir acesso universal.

Antônio Virgínio, secretário municipal de Saúde, fez uma ampla análise da situação, alertando que, apesar da tecnologia, os casos aumentam devido aos hábitos modernos e à maior sobrevida dos pacientes que transmitem a carga genética. Ele elogiou a equipe técnica e a parceria com a Câmara Municipal.
“Falar de diabetes é falar de um ciclo de ação que vai da educação alimentar à cirurgia complexa. Envolve o município, o Estado, a União e a família”, pontuou o secretário.

O vereador Cláudio Abiúde também compareceu à audiência para prestar apoio à iniciativa. Em sua fala, ele destacou a relevância pessoal da pauta, relatando os cuidados diários com sua mãe, que enfrenta o diabetes e suas comorbidades, parabenizando o colega Thor de Ninha e a equipe de saúde pelo acolhimento oferecido às famílias de Alagoinhas.

Reforçando a importância da prevenção, o oftalmologista Jorge Dantas (Clínica Otoface), parceiro do evento, realizou exames gratuitos de retinografia no local. Ele alertou que a retinopatia diabética, junto com o glaucoma, é a maior causa de cegueira irreversível, mas que pode ser evitada com exames anuais simples, muitas vezes negligenciados pelos pacientes.

A audiência integrou saúde mental e cultura. O poeta João Lopes Filho declamou poemas e fez defesa apaixonada da arte como ferramenta de saúde cognitiva e emocional, essencial para o enfrentamento de doenças crônicas.
A psicóloga Mariangela Maggioni reforçou a necessidade de novas linhas de cuidado, especificamente para a população idosa e comunidades negras e quilombolas, que sofrem impactos desproporcionais da doença.

Representando a sociedade civil, o presidente da Associação dos Diabéticos de Alagoinhas (ADIA), José Santana, cobrou a ampliação das cotas de atendimento e parcerias para 2026, além de organizar uma rede de doação de insumos entre os presentes.

Mais uma voz da comunidade teve espaço na audiência pública por meio das argumentações de Alan Fabricio Matos, guarda municipal e pai de uma criança com Diabetes Tipo 1. Ele demarcou a luta legislativa nacional (PL 2687/2022) para classificar o Diabetes Tipo 1 como deficiência (PCD), o que garantiria proteção legal e direitos específicos, dado o impacto diário e limitante da condição na vida escolar e social das crianças.
Thor de Ninha encerrou a audiência reafirmando o compromisso de seu mandato em ser caixa de ressonância das demandas dos portadores de diabetes. “O interesse e o esforço para que as pessoas tenham mais qualidade de vida estão aqui presentes. Para que as pessoas tenham mais sobrevida e mais tempo de vida. Estamos aqui travando esse grande debate”, concluiu.
Para assistir a sessão na íntegra, clique no link: TV Câmara Alagoinhas
Ascom – Câmara Municipal de Alagoinhas
Fotos – Jhô Paz